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O Brasil por trás da aquarela

O Brasil está combatendo diversos tipos de desigualdade. No entanto, uma das nações mais diversas do mundo está apenas começando a falar sobre raça.

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Quando Daniele de Araújo descobriu, há seis anos, que estava grávida, saiu decidida de sua pequena casa, numa rua de terra batida na Baixada Fluminense, morro acima. A trilha íngreme e verdejante que começa perto de onde ela mora não é longa, mas a área é controlada por traficantes de drogas, e, por isso, Daniele estava ansiosa enquanto caminhava. Mas Daniele precisava pedir algo muito importante a Deus, e ela queria estar num lugar que sentisse ser apropriado para a magnitude de seu pedido.

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Ela disse a Deus que queria uma menina, e que ela fosse saudável, mas ainda havia o pedido mais importante de todos: “O bebê tem que ser branco.”

Daniele conhece os efeitos quixotescos da genética: ela tem uma mãe branca e um pai negro, irmãs que passam por brancas, e um irmão de pele quase tão escura quanto a dela – “Eu sou muito preta”, diz ela. Seu marido, Jonatas dos Praseres, também tem um pai negro e uma mãe branca, mas sua pele é clara – quando ele passou pelo serviço militar obrigatório, um oficial escreveu “branco” nos documentos oficiais.

E então, quanto o bebê chegou, só de pôr os olhos nela, Daniele se encheu de alívio: a pequena Sarah Ashley era tão rosada quanto os lençóis em que estava enrolada. Melhor ainda, quanto mais ela crescia, mais claramente lisas pareciam suas madeixas; não era “cabelo ruim”, como os fios crespos são universalmente classificados no Brasil. Hoje em dia, Sarah tem uma cascata de cachos aloirados até a cintura; eles são a grande alegria de sua mãe. O tom de pele da menina está em algum ponto entre o da mãe e o do pai – mas ela era clara o bastante para que eles a registrassem como branca em seus documentos oficiais, conforme eles torciam que acontecesse. (Muitos documentos oficiais no Brasil têm um espaço para “raça e/ou cor”, entre outras informações básicas de identificação.)

Daniele de Araújo com Jonatas dos Praseres e sua filha, Sarah Ashley: a família dela 'me parabenizou', diz ela, quando conheceu seu futuro marido, 'porque eu estava clareando a família, né? Parecia que eu estava fazendo uma grande coisa.' Mesmo assim, ela rezou para que Sarah nascesse branca. (Mario Tama/Getty Images para The Globe and Mail)

Daniele e Jonatas guardam as fotos de seu casamento, celebrado em 2005, num álbum de veludo vermelho numa prateleira solitária na sala. As fotografias reluzentes exibem membros da família de uma dúzia de cores de pele diferentes, braço com braço, rostos enrugados em sorrisos posados para o fotógrafo. Há inúmeros álbuns com fotografias semelhantes por todo o país: um terço dos casamentos no Brasil são inter-raciais – taxa considerada a mais alta do mundo. (No Canadá, apesar de cidades mundialmente famosas por sua diversidade, como Vancouver e Toronto, a mesma taxa não passa dos 5%.) A estatística é a mais óbvia prova de como as relações raciais no Brasil são vivenciadas diferentemente de outras partes do mundo.

Mas a variedade de cores não consegue disfarçar uma verdade fundamental, conta Daniele: existe uma hierarquia, e quem é branco está no topo.

Muito tem mudado neste país. Daniele saiu da escola adolescente para trabalhar como empregada doméstica – quase a única opção para uma mulher com a pele tão escura quanto a dela –, mas agora ela é uma profissional do ramo da saúde e possui casa própria, coisas que ela não imaginava ter há 15 anos. Ainda assim, ela diz: “Isso aqui é Brasil.” E não adianta tapar o sol com a peneira. Ser negro é lindo, mas ser branco – ser branco é simplesmente mais fácil. Mesmo na classe média a vida é uma luta por aqui. E os pais da Sarah queriam uma vida mais fácil para sua filha.

A história brasileira de colonialismo, escravidão e ditadura, seguida de um ciclo de mudança social turbulenta, produziu um país que é ao mesmo tempo culturalmente homogêneo e cromaticamente diverso ao extremo. É um pilar da identidade nacional que o país seja tão racialmente diverso – mais do que qualquer outro país na Terra, dizem os brasileiros. Muito menos discutida, mas igualmente visível – em todos os restaurantes cheios de fregueses brancos e garçons negros, em cada condomínio onde um porteiro negro apontará o elevador de serviço a um visitante negro –, é a profunda desigualdade racial.

A experiência brasileira persevera em marcado contraste à forma como a questão se desenvolve nos Estados Unidos. Uma chacina como a de Charleston, na Carolina do Sul, supostamente executada por um supremacista branco, é algo inimaginável aqui. Assim como um discurso proferido pela presidente clamando para que o país confronte sua desigualdade racial. O que aconteceu com Rachel Dolezal – a mulher loira de olhos azuis que escolheu se passar por negra, e foi achincalhada em praça pública – é igualmente insólito no Brasil, onde a identidade racial é sempre fluida, e tem sido propositalmente circunscrita a questões de cor. Muitos brasileiros, de todas as raças, comparam seu país favoravelmente aos Estados Unidos, onde a discussão sobre racismo é aberta e frequentemente raivosa.

Contudo, a força da discriminação no Brasil não perde em nada para o racismo norte-americano, e ela, aqui também, cobra um preço alto. Ela causa prejuízos óbvios (por exemplo, o número desproporcional de jovens negros na prisão) e sutis, como as conversas que Daniele e Jonatas têm sobre sua filha, para discutir se ela é branca “o bastante”.

Mas também há uma mudança em curso: ela é morosa, talvez transitória, e certamente frágil. Mesmo assim, está acontecendo, tanto por meio de reformas institucionais quanto de escolhas íntimas. Durante o processo, essa mudança tem posto em questionamento construções de identidade desenvolvidas durante séculos, e tem oferecido a pessoas como Daniele formas completamente diferentes de imaginar suas vidas.

A estrada para a pigmentocracia
Parte 2

A estrada para a pigmentocracia

Ana Maria de la Merced Guimarães sabia, é claro que sabia, que o Brasil um dia teve escravidão. Eles não lhe ensinaram muito sobre isso na escola uns 40 anos atrás, mas os rostos negros de alguns de seus vizinhos eram prova de que muitos brasileiros têm suas raízes na África. Ainda assim, não era algo sobre o que se falasse.

Merced, que é branca, certamente não estava pensando nisso em 1996, quando decidiu reformar sua casa. É um sobrado, com cerca de 150 anos, numa rua carioca inundada de história: o samba foi inventado neste bairro, e logo na esquina foram adornadas as primeiras celebrações que tornaram o carnaval uma marca registrada do Rio de Janeiro. Merced, que tinha um pequeno negócio de dedetização, queria adicionar um segundo andar à casa a fim de abrir espaço para a família que crescia.

Os pedreiros começaram a escavar as fundações da casa, para reforçá-la. Depois de um dia cavando, eles encontraram ossos aparentemente humanos. “No início, eu pensei que fosse uma vítima de assassinato”, diz Merced, hoje com 58 anos, sentada num cômodo frio da casa. Ela abaixa a voz quando se lembra de sua apreensão. “E eles encontraram mais ossos. Eu pensei: ‘Era um serial killer’. Mas aí encontram mais ossos, e mais ossos, e eu pensei, ‘Não, não existe um crime tão perfeito que permita a alguém matar todas essas pessoas sem ser descoberto.’ ”

Então, ela ligou para a prefeitura, e alguns dias depois um especialista chegou para investigar o caso. Merced foi informada de que sua casa estava em cima do que um dia fora o Cemitério dos Pretos Novos. Aqui mesmo, descobriu ela, foi o lugar em que um dia o Rio de Janeiro se desfez dos corpos de africanos que haviam sobrevivido à jornada brutal através do Atlântico, mas morrido antes de poderem ser vendidos no mercado de escravos que ficava no fim da rua.

“A gente chama de cemitério, mas não é bem isso: é uma cova onde eles eram jogados, e eles apodreciam, e depois eles queimavam os corpos e moíam e empurravam para fora do caminho para botar mais gente dentro”, diz ela. “Ninguém foi enterrado inteiro. Quanto mais eu aprendia sobre a história, mais perturbada eu ficava – muitas eram crianças, tem bebês, e tem tantos, mais de 50 mil, eu acho.”

No fim das contas Merced descobriu que o cemitério fora usado para enterrar mais ou menos duas mil pessoas por ano, entre as décadas de 1760 e 1830, quando o movimento abolicionista britânico começou a reduzir a chegada de navios de escravos no porto do Rio. Uma geração depois, a vala comum foi coberta por pavimento, e a primeira fileira de casas, incluindo a dela, foi construída por volta de 1876. “Eles estavam tentando apagar a memória”, diz ela.

E fizeram um belo trabalho.

Hoje, existe um projeto de R$ 8 bilhões em curso para reabilitar o bairro de Merced. Ele é estampado por empreendimentos de torres comerciais e prédios de condomínios, além de um enorme Museu do Amanhã. Não há, no entanto, um museu do passado – nada que comemore o fato de que este porto pertenceu um dia à capital global do tráfico de pessoas.

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O Jantar, uma litografia de 1839 que traz para dentro de casa as profundas diferenças entre mestre e escravo, é obra do artista Jean-Baptiste Debret (1768-1848), que passou 15 anos no Brasil, capturando a vida cotidiana de uma sociedade construída em cima da escravidão. (Bibliotheque Nationale, Paris, France/Archives Charmet/Bridgeman Images)

O Brasil importou mais escravos do que qualquer outro país. Um total de 20% de todas as pessoas raptadas da África para serem vendidas eram trazidas para cá – um número estimado em cinco milhões de pessoas; 400 mil foram para os Estados Unidos e para o Canadá.

A jornada para o Brasil era mais barata do que para a América do Norte por causa da proximidade e das correntes de vento, o que significava escravos mais baratos também. Donos de escravos não viam razão para gastar dinheiro alimentando-os bem ou tomando conta deles; fazia mais sentido fazê-los trabalhar até a morte e depois substituí-los. Como resultado, os escravos no Brasil tiveram, em média, um tempo de vida dramaticamente mais curto do que aqueles vendidos para os Estados Unidos. Eles eram, no entanto, essenciais para o desenvolvimento da economia – as plantações de açúcar, as fazendas de café, as minas de ouro. Mais de dois milhões de escravos passaram pelo Rio de Janeiro; foram alimentados nas casas de engorda perto da rua de Merced, antes de serem exibidos nus pelas ruas, inspecionados e vendidos nas praças. O Brasil foi o último país do mundo a oficialmente abolir com a escravidão.

Até que, em 1888, quando a abolição finalmente despontou, havia mais negros do que brancos no Brasil, além de uma enorme população que podia ser descrita como mestiça ou parda – produto de uma história de colonização que assistiu a Portugal exportar majoritariamente colonos homens por 300 anos. No início, esses homens tiveram relações sexuais, consensuais ou forçadas, com mulheres indígenas. Quando a população indígena não conseguiu prover a força de trabalho cativa desejada pelos portugueses – fugindo para o interior em vez de trabalhar nas novas plantações, ou morrendo de doenças infecciosas –, os colonizadores decidiram importar escravos africanos, que eram frequentemente estuprados por seus senhores.

Quando a escravidão acabou, membros da elite branca se descobriram, aflitos, em menor número. Eles também estavam exasperados, explica Ivanir dos Santos, um pedagogo e ativista negro do Rio: como conseguiriam construir uma nação próspera e produtiva, pensavam eles, se a linhagem predominante de cidadãos era formada por filhos de selvagens africanos? A solução óbvia, concluíram, era importar genes melhores.

O governo desencorajou ativamente os antigos donos de darem trabalho pago aos ex-escravos, e se lançou num esforço para atrair europeus brancos pobres ao país a fim de formar a nova força de trabalho – com a intenção aberta de embranquecer a população.

“O princípio fundador da Primeira República foi a eugenia”, é a análise sarcástica de Santos. A política acabou eternizada numa lei de imigração que dizia: “Atender-se-á, na admissão dos imigrantes, à necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência europeia.”

A grande sombra da escravidão
Parte 3

A grande sombra da escravidão

Enquanto os antigos donos de escravos se empenhavam em diluir a negritude do país, eles também combinaram qual história iriam contar. No mito criador do Brasil – a versão brasileira do “mosaico cultural” canadense e do “melting pot” norte-americano (frequentemente traduzido como um “caldeirão de culturas”) –, o país é uma democracia racial. A história oficial foi construída em cima da ideia de que, no dia em que a escravidão acabou, brasileiros de todas as cores se tornaram iguais. Afinal de contas, não havia segregação, apartheid, Jim Crow. Passando por cima das imensas disparidades entre antigos senhores e escravos recém-libertos – sem qualquer educação, terra ou bens –, a elite brasileira, quase completamente branca, declarou o país unicamente igualitário e, de fato, pós-racial.

“Foi a ‘invisibilização’”, diz Marcelo Paixão, um professor negro do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “O discurso era de que nós não tínhamos raça no Brasil, então você não tem problemas raciais no Brasil, então você não precisa discutir a desigualdade.”

O primeiro censo depois do fim da escravidão, em 1890, perguntou não sobre raça, mas sobre cor: os cidadãos foram questionados se eram brancos, pardos, pretos, amarelos ou caboclos. Durante os anos seguintes, a identidade racial foi substituída por considerações sobre cor de forma consistente. Em 1976, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), objetivando aumentar a precisão do censo, entrevistou milhares de brasileiros sobre a palavra que eles mesmos usavam para se descrever – e voltou com uma lista de 136 itens. Ela incluía termos como “amarela-queimada”, “canela” e “morena-bem-chegada”.

“Foi a ‘invisibilização’. O discurso era de que nós não temos raça no Brasil, então você não tem problemas raciais no Brasil, então você não precisa discutir a desigualdade.”— Marcelo Paixão, um professor negro do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Em algum nível, era uma ideologia progressista, ressalta Paixão – ela permitiu nuances em vez de indicadores restritos de pureza racial. Ela também resultou numa cultura genuinamente misturada, ainda que essa mistura seja fruto, em parte, de uma apropriação. Bases da cultura negra – como o samba e a capoeira, luta praticada secretamente por escravos – foram completamente cooptadas para a identidade brasileira.

Mas dentro daquela cultura, daquela sociedade, havia uma irrefutável hierarquia do que viriam a ser considerados traços raciais. A ideia dominante, propagada pelos brancos, e com o passar dos anos aceita por pessoas pretas e pardas também, explica Marcelo Paixão, era de que a parte “branca” da mistura trazia uma racionalidade europeia, enquanto os africanos traziam alegria e criatividade, um ponto de vista positivo – ele lista os adjetivos com um olhar sarcástico. Quanto mais branca uma pessoa fosse, mais ela guardava características “valorosas”. Ser mais branco significava ter uma chance melhor de conseguir um emprego, e de ganhar mais nesse emprego. Ser mais branco, em outras palavras, significava ter uma vida mais fácil. O Brasil se tornou o que às vezes é chamado de “pigmentocracia”. (Paixão está entre os menos de 5% de negros no corpo docente da UFRJ.)

Enquanto isso, a divisão de poder e riqueza estabelecida nos tempos da abolição da escravatura nunca foi abordada. Os escravos livres no Brasil estavam “livres” também das conquistas fundamentais para se chegar à igualdade material: bens, educação e acesso ao capital. Não havia reforma agrária para repartir os enormes latifúndios e dar aos antigos escravos uma forma de se sustentar. No Rio, foi negado aos ex-escravos o direito de viver na cidade formal, e por isso eles se viraram para arranjar alguma forma de moradia nos morros ao redor – é esta a origem sombria das favelas, hoje essenciais à identidade de cartão-postal da cidade.

Composição racial por bairro no Rio de Janeiro

Das 6.320.466 pessoas no Rio, 51% se identificam como brancas de acordo com o censo de 2010, 36,5% são pardas e 11,5%, pretas. Nos bairros abaixo, quanto mais escuro o vermelho, maior é a concentração de pessoas que se identificam como brancas. A maior concentração de pessoas brancas em um bairro tende a coincidir com uma média de renda mais alta.

Branco
Preto
Pardo
Outros
População
Renda média

The Globe and Mail - fonte: IBGE, 2010

Clique nas regiões para obter mais detalhes. Clique de novo para aproximar ou afastar a imagem. Os números sobre renda mensal incluem entrevistados sem renda.

O legado da escravidão, ou o fracasso em abordá-lo, é visível numa infinidade de outras formas. O Brasil viu enorme progresso social nos últimos 13 anos, mais de 30 milhões de pessoas, quase um sexto da população, saiu da pobreza e entrou na classe média. O impulso veio tanto do crescimento econômico (empurrado pela descoberta de vastos campos de petróleo e pelos altos preços das commodities, aquecidos pela demanda chinesa), quanto de políticas sociais implementadas por uma série de governos de esquerda que aumentaram dramaticamente o salário mínimo e usaram programas de transferência de renda direcionadas para trazer segurança econômica aos mais pobres.

Mas o progresso não impactou todos os brasileiros igualmente. Mesmo depois desses 13 anos de rápidas mudanças, brasileiros pretos e pardos continuam a ganhar bem menos do que seus compatriotas brancos: 42,2% menos. Trinta por cento menos deles terminam o Ensino Médio. Brasileiros negros morrem mais cedo, e jovens negros morrem a taxas dramaticamente mais altas do que jovens brancos, tipicamente vítimas da violência, com frequência praticada por policiais.

Graças ao crescimento econômico e a políticas sociais progressistas, a renda média no Brasil disparou desde 2003. Contudo, o abismo entre a renda de brancos e negros persiste. (Renda em R$)

Na verdade, o progresso econômico e social serviu de muitas formas para trazer à luz quão entranhada a hierarquia de raça e cor ainda é. No último censo, em 2010, 51% dos brasileiros se identificaram como pretos ou pardos. Contudo, os centros de poder retratam uma realidade diversa. Dos 38 ministros do governo federal, apenas uma é negra – a ministra de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Das 381 empresas listadas na Bovespa, a bolsa de São Paulo, nenhuma tem um CEO negro ou pardo. Oitenta por cento dos congressistas brasileiros são brancos. Em 2010, um instituto de pesquisa em São Paulo analisou o corpo de executivos das 500 maiores empresas do Brasil e descobriu que mero 0,2% deles eram negros, e apenas 5,1%, pardos.

Uma porcentagem maior de brancos tem 15 ou mais anos de estudo, enquanto, entre os brasileiros negros, é maior a probabilidade de encontrar quem tenha menos de um ano de estudo.

Nem mesmo a taxa de casamentos inter-raciais pode ser considerada o tributo à tal democracia racial que ela parece ser. Quando se desagrega os dados para verificar quem está casando com quem, eles mostram que esses casamentos são menos comuns nas classes mais abastadas (predominantemente brancas), e mais frequentes entre os cidadãos de salários mais baixos, quase todos pretos ou pardos. Carlos Antonio Costa Ribeiro, um sociólogo branco da Universidade Estadual do Rio de Janeiro que estuda raça e economia, analisa os dados como uma triste barganha: quando esses casamentos ocorrem, o parceiro de pele mais escura tem normalmente um nível educacional mais alto, ou uma renda mais alta, ou os dois. O relacionamento, ao menos de certa forma, é uma transação econômica – cada um ganha alguma mobilidade social, de um tipo ou de outro.

Existe também uma espécie de alquimia, explica Ribeiro, por meio da qual pessoas com uma origem racial miscigenada que têm sucesso nos negócios ou na política, como o magnata da mídia Roberto Marinho, vêm a ser vistos como brancos. Mesmo nos dois campos em que brasileiros negros conquistam mais sucesso – esporte e música –, esta alquimia consegue exercer seu poder lúgubre. O fenômeno futebolístico Neymar da Silva Santos Júnior, que se apresentou como negro a partir do momento em que começou a atrair atenção, pode até não ter se tornado branco na percepção popular, mas certamente não é visto como negro.

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Daniele, à direita, ficou aliviada quando sua filha, Sarah, no centro, nasceu branca como seu marido, Jonatas, à esquerda. (Mario Tama/Getty Images para The Globe and Mail)

Foi contra todo esse longo e complexo pano de fundo que Daniele e Jonatas se conheceram no Rio há 15 anos, como adolescentes numa área cheia de problemas das mais variadas ordens. Eles conviviam com uma garotada multirracial, e nenhum dos dois pensou sobre raça, conta o casal, quando acabaram se beijando numa esquina certa noite. Jonatas, atarracado e tímido, lembrou-se, durante uma conversa numa tarde de domingo recente, que ele sabia, no minuto em que a conheceu, que esta garota esbelta e incrivelmente carismática, era a mulher certa para ele. Ele não hesitou em trazê-la para casa para conhecer sua família. (Por que ele hesitaria? Seu próprio pai tinha a pele tão escura quanto a dela.) Ele diz que tudo correu muito bem.

Mas não é bem assim que sua mulher se lembra dos fatos. Virando o rosto para ele com uma expressão de exagerada surpresa, ela diz: “Eles me chamaram de neguinha e tudo! Eu ouvi as pessoas perguntando: ‘Você tá com aquela escurinha?’”

Na casa da família dela, por outro lado, o novo namorado foi recebido de forma distinta. “Eles me parabenizaram”, diz ela, como quem explica o óbvio. “Porque eu estava clareando a família, né? Parecia que estava conquistando uma grande coisa.”

“Não passou por branco, é preto.”
Parte 4

“Não passou por branco, é preto.”

A determinação do Brasil de continuar a deixar questões de raça ditarem o acesso a oportunidades custa ao país: no enorme número de homens negros que se encontram na prisão e não na escola ou no trabalho, na sucessão de gerações de mulheres negras condenadas a serem domésticas porque este parece ser o único trabalho que a sociedade as considera capazes de desempenhar. Em 2008, José Vicente, da Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares, em São Paulo, calculou que o Produto Interno Bruto brasileiro seria dois pontos percentuais maior se a população negra conseguisse participar plenamente da economia. O custo é alto para todos, ressalta Marcelo Paixão, e mesmo assim os líderes do empresariado que mantêm forças de trabalho quase completamente brancas não conseguem enxergá-lo.

E ainda há outro tipo de custo, aquele que irrompe nos momentos mais íntimos entre mãe e filha. Sarah às vezes senta no colo de sua mãe e estende o braço contra o de Daniele.

“Eu queria ser que nem você”, diz a menina de cinco anos. “Eu queria que a minha pele fosse igual à sua; a sua pele é linda.” Sua mãe a corrige de forma gentil. “Eu falo para ela: ‘A minha pele é feia. Essa cor é feia.’”

“Eu achava que eu era a pior das piores, a mais feia. Eu achava que todo mundo estava olhando para mim.”— Daniele de Araújo, falando sobre como ela se sentia ainda criança, quando sua mãe fazia comentários que ela pensava serem sobre a cor de sua pele.

Daniele claramente luta contra as contradições de seus próprios conceitos sobre raça. Sua postura é a de uma mulher confiante em relação à sua beleza. Como cristã evangélica, ela não quer sugerir que Deus poderia ter cometido um erro quando a criou. Mas essas verdades inatas são às vezes difíceis de reconciliar com tudo o que ouviu dos outros durante a vida. Quando Daniele era criança, sua mãe, que é branca, dizia coisas como: “Eu te encontrei no lixo.”

“Ela não falava de um jeito maldoso, exatamente”, diz Daniele. Contudo, sua mãe nunca fez comentários do tipo direcionados à sua irmã. “Eu sempre fiquei pensando se era porque minha irmã era mais velha, ou se era porque ela era mais clara”, lembra ela. “Eu achava que eu era a pior das piores, a mais feia. Eu achava que todo mundo estava olhando para mim.”

Daniele e sua família moram em Nova Iguaçu, uma cidade-dormitório a apenas 40 quilômetros das areias e coqueiros de Copacabana. Mas bem poderia estar em outro universo. As estradas são péssimas, a polícia aparece apenas para recolher propina, e as pessoas vivem em casas toscas de tijolo, erguidas por trás de muros altos. Por aqui, no entanto, há espaço, longe das favelas do Rio, mais caras e congestionadas. Aqui ainda há a oportunidade de construir uma casa como ela e seu marido fizeram, e famílias têm se mudado para cá buscando consolidar sua posição na nova classe média. A avó de Daniele, Nadir de Mattos Corrêa, mora a mais ou menos dois quarteirões de distância, com duas de suas filhas, Simone e Michelle, e suas famílias. Daniele e suas tias visitam uma a casa da outra o tempo todo.

Daniele é próxima de sua tia Simone Vieira de Lucena, cuja pele é tão escura quanto a dela. Simone foi criada como Daniele, como a mais escura entre seus muitos irmãos. Daniele às vezes chama a tia pelo seu apelido na família: Neguinha.

Simone Vieira de Lucena é tia de Daniele, e as duas são próximas: ambas cresceram como as crianças de pele mais escura entre seus irmãos. (Mario Tama/Getty Images para The Globe and Mail)

“Eu sou a mais escura – então elas me chamavam assim”, diz Simone, de 42 anos. Quando ela era criança, diz, suas irmãs lhe diziam que uma pessoa com aquele nariz, aquele cabelo, não podia ter esperanças de encontrar um marido. A ideia se assentou de tal forma na cabeça de Simone que ela não deixava ninguém tirar fotos suas até completar vinte e poucos anos. Assim como Daniele, ela dá crédito à igreja por melhorar de certa forma sua autoestima – e também ao cansaço de desejar inutilmente uma pele mais clara. Ela e sua sobrinha chamam uma à outra de “preta”, às vezes, e não pelo nome. Simone também chama sua melhor amiga, cuja pele é ainda mais escura que a dela, de “macaca” ou “fumaça”. Daniele e Simone dizem fazer isso de forma carinhosa. “É diferente”, diz Simone, “quando é entre a gente”.

No censo, Simone assinala a opção “preto”. Seu marido, Joacinei Araújo de Lucena, de 48 anos, é filho de uma mãe negra e um pai branco, assim como ela, mas se identifica como “pardo”. Ele insiste que ele, Simone e seus dois filhos são misturados – nem um, nem outro –, e que a mistura é ela mesma uma raça diferente. Simone não dá confiança. “Não passou por branco, é preto”, costuma dizer ela, também para seus filhos adolescentes.

Tamanho é o pragmatismo de Simone que sua mãe se assusta. Aos 68 anos, Nadir diz não se lembrar de qualquer conflito racial em sua casa; ela rejeita a ideia de que qualquer de suas filhas tenha usado a raça de uma delas para atormentá-la. E também insiste que nunca enxergou raça.

“É verdade, eu estava sentada com ela numa fila e alguém dizia: ‘Que gracinha, ela é adotada?’, e eu dizia: ‘Não, ela é minha mesmo.’”, lembra ela, sentada no sofá da pequena sala de estar da casa de Simone.

“Era só porque ela parecia diferente. Mas eu tratava todos igualmente.”

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Nadir de Mattos Corrêa, mãe de Simone e avó de Daniele, diz que ela tratava todos os filhos igualmente, independentemente da cor de pele de cada um. (Mario Tama/Getty Images para The Globe and Mail)

Escutando isso, Simone fica tão irritada que não consegue ficar no mesmo cômodo que a mãe. Ela vai lavar pratos – de forma enérgica – na cozinha. Sua infância, segundo ela lembra, foi marcada pelo fato de que ninguém em sua família conseguia ou tentava ter sucesso na tarefa de arrumar seu cabelo. Em vez disso, sua mãe o deixava bem curtinho. “Eu parecia um menino.”

Nadir nega. “Eu cuidava dele, sim”, garante ela à visita.

Mas Simone não consegue se segurar; ela se inclina por cima do balcão da cozinha com um olhar exasperado. “Mãe, fala a verdade!”

Nadir parece estar na defensiva. “O cabelo dela não é tão ruim”, diz.

Simone se recolhe para a cozinha novamente.

Essas não são conversas que fluem facilmente entre brasileiros. Mesmo que Simone e Daniele possam chamar uma à outra de “preta”, entre estranhos, é mais educado descrever a cor do outro usando uma palavra que implique uma pele mais clara: chame a pessoa em questão de morena, não de negra, mesmo que sua pele seja preta.

Na verdade, para questões sensíveis, é melhor não usar palavra alguma. Existe um gesto universal – estenda um braço para a frente, estique o dedo indicador da outra mão e esfregue na pele, como quem experimenta um hidratante. Quando o filho de Simone, Rodrigo, de 23 anos, quer fazer sua mãe entender o motivo de ele não estar tão interessado naquela garota tão simpática da igreja, ele faz o mesmo gesto. Isso faz sua mãe jogar os braços para o alto em desespero.

Um médico negro na Liberdade
Parte 5

Um médico negro na Liberdade

A Liberdade é conhecida como o lugar mais negro fora da África. É um bairro – uma cidade dentro de uma cidade, na verdade – em Salvador, capital da Bahia. O estado tem mais de 80% de negros; a Liberdade é ainda mais negra. Escravos libertos instalaram-se aqui, nas beiradas da cidade formal; hoje, o bairro é um emaranhado de casas de tijolo eternamente à espera de mais um andar, com ônibus barulhentos navegando por seus becos estreitos. A Liberdade é dominada por gangues que lucram com o tráfico de drogas e extorquem pequenos comerciantes. Da mesma forma, suas ruas também estão cheias de crianças brincando e de senhores fofocando nos degraus ensolarados de suas casas.

A Unidade de Saúde da Família Santa Mônica fica numa esquina movimentada, onde o rapaz que trabalha na barraquinha de frutas desempenha também o papel de olheiro para o tráfico. A clínica fica lotada desde o momento em que abre as portas; ela atende cerca de 6,5 mil pessoas, ou duas vezes mais do que deveria oficialmente, e tem uma atração principal: o Dr. Ícaro Vidal.

O Dr. Ícaro Vidal veste o jaleco no seu consultório na Unidade de Saúde da Família Santa Mônica, no bairro da Liberdade, em Salvador. (Mario Tama/Getty Images para The Globe and Mail)

Ele é um dos dois médicos da clínica. Altíssimo, de corpo delgado, ele chega com seus óculos de hipster e uma camisa descolada por baixo do jaleco. Tem uma piada e um sorriso para todos, e a fila na porta de seu consultório dura o dia todo. “Todo mundo ama o Ícaro”, diz Ana Cláudia Sousa Farias, na recepção da clínica há 12 anos. Mas nem sempre foi assim; quando ele começou a trabalhar aqui, muita gente o olhou com desconfiança, lembra ela. As senhorinhas, especialmente: era o cabelo que não lhes inspirava confiança.

Sobre essas madeixas. Às vezes, o Dr. Vidal as amarra em tranças estreitas unidas por um rabo de cavalo junto ao pescoço. Outras vezes, ele as deixa soltas, o que as assemelha a uma flor dente-de-leão. Ele nunca as deixa curtas, como a maioria dos homens brasileiros. “Cabelo de verdade”, explica ele, com uma risada zombeteira.

Mesmo assim, ele entende o que não é dito; ele sabe por que as pessoas abrem a porta do seu consultório, olham para ele vestido no jaleco branco, e depois perguntam quando o médico volta. Ele é o primeiro médico negro que a maioria dos seus pacientes já teve. Quando ele se formou em medicina na Universidade Federal da Bahia (UFBA), há apenas dois anos, ele era o único aluno negro no palco. Ele foi criado aqui, na Liberdade. “Os médicos não costumam ser daqui”, diz ele.

Progresso e atraso
Parte 6

Progresso e atraso

Por 130 anos, os dados do censo brasileiro mostravam uma tendência estável: toda vez que o governo contava seus cidadãos, havia mais brancos. As ondas sucessivas de imigração tiveram um importante papel nisso. Mas outro processo menos tangível também teve sua função: essa coisa esquisita de “se passar por” alguma coisa, por meio da qual pessoas de origem miscigenada conseguiam assumir uma identidade branca.

Então, em 2010, veio uma mudança que surpreendeu os demógrafos. Pela primeira vez desde os tempos da escravidão, havia mais pretos e pardos do que brancos entre os brasileiros. A taxa de natalidade é quase igual entre as raças, então isso não explicaria a mudança.

Em 2010, pela primeira vez desde os tempos da abolição, em 1888, o censo brasileiro registrou mais cidadãos negros e pardos do que brancos. A mudança é atribuída não à taxa de natalidade, mas a uma transformação na forma como as pessoas se veem.

Há algo diferente no ar, conta Sergei Soares, que chefia o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. É uma mudança na forma como as pessoas se identificam. “Você poderia dizer que o que está acontecendo não é que o Brasil está se tornando uma nação de negros, mas que está admitindo ser uma”, explica Soares, que é branco. O movimento negro existe desde o fim da escravidão, mas ele nunca foi influente. Com o fim das duas décadas de ditadura, em 1985, abriu-se um novo espaço para o debate sobre direitos.

A constituição adotada em 1988 deu a alguns descendentes de escravos títulos das terras onde viviam, os quilombos. Em 1996, houve um plano nacional de direitos humanos que incluía diretrizes sobre a necessidade de compensar a população negra pela escravidão, mesmo que não houvesse um planejamento sobre a forma de fazê-lo. Lentamente, uma conversa pública sobre o legado da escravidão como algo além de tons de pele e dos adjetivos correspondentes a eles se iniciou.

O debate tomou corpo na hora certa para Ícaro Vidal.

Ambas as suas avós, de pai e de mãe, foram analfabetas; há duas gerações, seus ancestrais eram escravos. A mãe de Vidal, Raimunda dos Santos, terminou a oitava série e se mudou do interior do estado para Salvador, para ser empregada doméstica. Aos 21 anos, ela se casou com um homem que, como ela, tinha Ensino Médio completo; era um oficial de baixa patente na Polícia Militar, parte de um vasto contingente de homens (e mais recentemente de mulheres) negros e mal pagos, usados pelo Brasil para o policiamento das ruas.

O casal teve dois filhos; o trabalho dele frequentemente o levava para longe, enquanto Raimunda conseguiu um emprego no departamento de contabilidade de uma loja de móveis. Seu patrão lhe pediu que trouxesse o filho Ícaro para ajudar na loja durante a temporada mais movimentada, da mesma forma que outros funcionários faziam – mas ela encontrou formas de driblar o convite. Em vez disso, ela procurou aulas de inglês para preencher as tardes do garoto. No Brasil, a língua inglesa não é muito difundida; naquela época, parecia um desejo absurdo para um garoto negro e pobre aprendê-la. Todo mundo achava isso, menos Raimunda.

Ícaro Vidal com sua irmã Isis Carine Vidal dos Santos e sua mãe Raimunda Vidal dos Santos em Salvador. (Mario Tama/Getty Images para The Globe and Mail)

“Eu não achava justo: eu trabalhar duro, o pai trabalho duro, para ele ser que nem a gente?”, lembra ela, numa conversa na sala de estar de sua casa, reformada e decorada com móveis novos por seu filho, com seus primeiros salários. “Que tipo de escada não sobe?”

Ícaro e sua irmã, Isis, absorveram o senso de ambição da mãe. “Eu queria um trabalho profissional, confortável, em que eu trabalhasse de segunda a sexta-feira com um salário que me permitisse viajar duas ou três vezes por ano – ter lazer e segurança”, diz Vidal, de forma desprendida, como se fosse algo perfeitamente normal de se desejar num bairro em que os garotos que usam tênis novos são aqueles que levam e trazem pacotes para os traficantes de drogas.

Para ter sucesso em seu plano, no entanto, ele precisava chegar à universidade. E isso representava um problema. No Brasil há dois tipos de universidade: existem as privadas, que, ou cobram mensalidades proibitivas, ou têm qualidade questionável. E existem as públicas, administradas pelos governos estaduais e federal, que tendem a oferecer um ensino mais sofisticado – e são gratuitas. Contudo, a competição pelas vagas nas faculdades públicas é acirrada, e apenas candidatos vindos de escolas privadas, beneficiados por meses ou até anos de aulas particulares direcionadas para o vestibular, conseguem entrar.

Mas, em 2004, a UFBA introduziu uma nova política: 36% das vagas seriam reservadas para estudantes pretos e pardos. Durante anos, ativistas negros direcionaram suas críticas às universidades, os símbolos (e privilégios) máximos da elite, como um primeiro empurrão em direção às ações afirmativas. Em 2002, universidades começaram a adotar estratégias nesse sentido, reservando vagas para estudantes não brancos. As cotas, como elas são grosseiramente chamadas aqui, valiam para todas as faculdades, mas tiveram um impacto bem maior nas prestigiosas escolas de Direito, Medicina e Engenharia, que até mesmo na Bahia, de maioria negra, haviam por muito tempo formado turmas inteiramente brancas, ano após ano.

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Estudantes assistem a uma aula no Instituto Steve Biko, em Salvador, na Bahia. A instituição oferece um ano de aulas gratuitas para estudantes negros de famílias de baixa renda se prepararem para o vestibular. (Mario Tama/Getty Images para The Globe and Mail)

As cotas empurram a discussão sobre raça, normalmente velada no Brasil, para o espaço público. Alunos e professores atuaram em grandes e indignados protestos contra elas. No noticiário televisivo, mães brancas choravam ao descrever como seus filhos haviam se preparado por toda a vida para seguir os passos dos pais, mas de repente haviam tido seu direito nato negado. Os críticos mais vorazes das ações afirmativas insistiam que a política pública estava introduzindo a discriminação racial no Brasil – em vez de trabalhar para mitigá-la – simplesmente por ressaltar a própria existência da hierarquia entre raças.

A política “custa ao Brasil a identidade miscigenada criada no início do século XX, e isso é importante porque, se você se vê como uma pessoa miscigenada, você não tem políticas raciais”, diz Demétrio Magnoli, um renomado sociólogo branco, cujas críticas sobre as cotas são largamente replicadas em publicações brasileiras. “Eu sou contra o racismo, então eu prefiro que não haja perguntas sobre raça.”

O objetivo das cotas, diz ele, é ajudar uma fatia pequena da classe média negra – não porque o governo gosta especialmente dela, mas porque ela é uma moeda política útil. “Se você cria raças na legislação, você cria raças na política. E eu não quero viver num país assim.”

O argumento fundamental contra as ações afirmativas é este: o problema principal do Brasil é a desigualdade e, se ela for reduzida, a vida dos pobres, que são por acaso negros, vai melhorar – e isso significa que não há necessidade de direcionar a intervenção pública para questões raciais. O argumento, ressalta o ativista Ivanir dos Santos, dribla com destreza a discussão sobre as raízes históricas da desigualdade, e a necessidade de repará-las.

Em 2005, Vidal fez o vestibular da UFBA, inscreveu-se como um candidato negro, e foi aceito na primeira turma sob o sistema de cotas. Ele conta como ele e outros estudantes beneficiados pelas ações afirmativas podiam até não ser publicamente identificados como cotistas, mas eram obviamente visíveis dentro de um corpo discente quase completamente branco. Era raro haver qualquer hostilidade aberta – o racismo no Brasil não é aberto, pontua Ícaro Vidal, de forma sardônica –, mas a oposição à política era palpável. Um dia, um professor, que olhava para algum ponto acima da cabeça de Vidal enquanto ele assistia a uma aula dentro de sala, comentou como a média da turma numa prova havia sido baixa, mas “que aquele era o efeito das cotas”. Outros alunos conversavam sobre o assunto em seus grupos, alto o bastante para que Vidal pudesse ouvi-los. “As pessoas diziam: ‘Toda a minha vida eu estudei, e agora alguém que não é tão bom quanto eu ou meu amigo vem, e a vaga é tomada por essa pessoa sem qualificação.’” O Brasil não estava mais recompensando aqueles com mérito, observavam eles, e sim apenas aqueles com certas características físicas.

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Vidal, que se formou entre os primeiros alunos de sua turma, examina o jovem paciente Davi Lucas, enquanto a mãe do bebê, Liliane Soares da Silva, assiste (Mario Tama/Getty Images para The Globe and Mail)

Quando alguém falava isso na sua cara, ele tinha uma resposta sucinta: “Eu dizia: ‘Sabe, o mérito começa quando você é criança. Se você tem um quarto só seu, onde você pode estudar, toda a comida de que você precisa para uma boa alimentação; se nós estamos na mesma escola e você não tem que começar a trabalhar com 13 anos de idade para cuidar de outras crianças e ganhar dinheiro para sustentá-las – então, nós estamos competindo de igual para igual, e podemos falar de mérito.’”

Pesquisas na UFBA e em outras universidades brasileiras descobriram que alunos beneficiados por ações afirmativas se saem tão bem, ou, em alguns casos, até melhor que seus colegas de classe. Vidal se formou entre os melhores de sua turma e logo começou a residência no Programa de Saúde da Família no seu antigo bairro. As mulheres mais velhas logo se conformaram com seu cabelo. As grávidas começaram a procurá-lo especificamente, tanto por sua paciência quanto por seu sorriso ofuscante.

“Quando ele começou, as pessoas ficaram desconfiadas – você ouvia falar na comunidade –, porque ele era negro e jovem: pacientes negros eram até mais céticos do que os brancos. Eles acham que só pessoas brancas têm capacidade para estudar e aprender”, comentou Mônica Nascimento França, uma professora de 39 anos, nervosa e aflita em relação à iminência do nascimento de seu primeiro filho na sala de espera abafada do posto de saúde. “Mas você pode perceber o tipo de médico que ele é, que ele é afro-brasileiro e veio desta comunidade, você sabe quanto preconceito tem aqui. E ele encarou.”

Em busca da verdade e da equidade
Parte 7

Em busca da verdade e da equidade

Num dia ensolarado em novembro passado, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, compareceu a uma recepção para marcar a inauguração de um prédio de escritórios de 22 andares. Garçons passavam com bandejas de canapés, enquanto convidados elegantemente vestidos relaxavam em sofás de couro branco. O prédio era o primeiro novo empreendimento dentro do projeto multibilionário de revitalização que o prefeito batizou de Porto Maravilha, um plano que, promete ele, irá reincorporar essa área esquecida à cidade.

Paes, que é branco, falou longamente sobre a história gloriosa do Rio, e, em poucas frases, transcorreu sobre o período durante o qual a cidade era a capital mundial do comércio de escravos.

O novo prédio fora construído por uma empresa imobiliária norte-americana, e seu CEO, um norte-americano branco chamado Rob Speyer, aproveitou o evento para falar como estava feliz de estar no Brasil, onde “diferentes etnias se misturam” numa “unidade maravilhosa” – tão preferível, disse ele, aos violentos protestos que aconteciam no seu país natal, em Ferguson, no Missouri, após o assassinato de um homem negro desarmado por um policial branco. Seus ouvintes lhe observavam com expressões de aprovação. Havia cerca de 200 pessoas no evento; das oito que não eram brancas, seis eram garçons ou faziam parte da equipe de trabalhadores do evento.

Enquanto o prefeito inaugurava o prédio, outro evento ocorria a menos de um quilômetro dali. A Ordem dos Advogados do Brasil reunira cerca de cem pessoas (todas negras, exceto por duas) numa sala de conferências com uma vista aberta para a região portuária. O objetivo era anunciar o lançamento da “comissão da verdade” para explorar a história e as repercussões da escravidão no Brasil, e qual reparação precisava ser feita em benefício dos descendentes de escravos.

“Nós sempre dizemos: todos os brancos agora, que estão vivos hoje, não são responsáveis pelo processo da escravidão, mas eles se beneficiam até hoje deste sistema”— Marcelo Dias, membro da Comissão da Verdade da Escravidão Negra.

Na reunião, Marcelo Dias foi nomeado presidente da comissão no Rio; ele chamou a iniciativa de “o momento mais importante para os afro-brasileiros desde o fim da escravidão”. De seus assentos no palco, os novos membros da comissão prometeram investigar que empresas haviam se tornado ricas com trabalho forçado, e aprofundar seu conhecimento sobre as atrocidades impostas aos africanos que foram trazidos para cá – detalhes que receberam pouca publicidade até agora. Eles disseram que pressionariam o governo federal a tornar a iniciativa um esforço nacional, como a Comissão Nacional da Verdade, concluída ano passado, que investigou as décadas de abuso aos direitos humanos durante a ditadura militar no Brasil.

Mas, nos meses seguintes, a comissão afundou. As reuniões e audiências públicas foram recebidas por poucos participantes e receberam quase nenhuma cobertura da imprensa. O governo federal não fez qualquer movimento no sentido de se apropriar da comissão ou mesmo de apoiá-la. E os membros do grupo pelejaram para encontrar fontes para as verdades que queriam contar – por uma variedade de razões, incluindo o fato de os registros históricos sobreviventes no Brasil serem poucos quando comparados, por exemplo, aos dos Estados Unidos, porque poucos donos de escravos no país eram alfabetizados.

É claro que uma coisa é perguntar sobre o que de fato aconteceu aqui; outra é perguntar o que é devido às vítimas. Membros da comissão foram cuidadosos ao usar a palavra “reparações” – um assunto cada vez mais presente em debates em outros países com histórico de desigualdade racial aguda, como a África do Sul e os Estados Unidos, mas quase não discutido no Brasil.

“Nós sempre dizemos: todos os brancos agora, que estão vivos hoje, não são responsáveis pelo processo da escravidão, mas eles se beneficiam até hoje deste sistema”, explicou Dias numa entrevista antes de a reunião começar. Os membros da comissão discutiram o modelo implementado pela Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial, mas concluíram que seria impossível, centenas de anos depois, calcular o valor devido a indivíduos – e, de qualquer forma, o governo nunca pagaria.

“As ações afirmativas já geram um debate acalorado. Imagina quando nós entregarmos a conta”, disse Dias no primeiro dia, rindo com vontade. “‘Olha, aqui está sua conta. Metade do que é seu agora é nosso. Nós queremos de volta.’ Teria uma guerra civil aqui!”

Dias frisa o fato de as ações afirmativas beneficiarem apenas uma minoria de indivíduos raros (como o doutor Ícaro Vidal), que são capazes de conquistar vagas em universidades de elite. Apesar disso, reparações abrangentes não podem ser feitas com compensações monetárias objetivas. Então, sua comissão propõe que elas tomem a forma de um fundo a ser investido em comunidades de maioria negra – gastos extras em hospitais, transporte, escolas, serviços sociais e criação de empregos. E museus, mais ambiciosos e oficiais do que o de Merced, com sua exposição no meio da sala de casa sobre o cemitério de escravos. O Brasil precisa se esforçar genuinamente para contar a história correta sobre a escravidão, e torná-la pública em vez de encobri-la, diz Dias.

Um adolescente mergulha no mar de uma pedra em frente à comunidade Gamboa de Baixo, em Salvador (Mario Tama/Getty Images para The Globe and Mail).

“Eu não sei se seremos fortes o bastante para obter essas reparações do Estado”, disse ele, depois de quatro meses de trabalho da comissão. “Mas nós temos que criar um debate na sociedade.”

Em 2003, o governo federal criou a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial; ela administra a implementação de ações afirmativas e de leis antidiscriminatórias, abarcando tudo desde o discurso de ódio (frequentemente aplicada contra torcedores racistas em jogos de futebol) até a parcialidade na contratação de empregados, escolha de inquilinos e aceitação de alunos em escolas. Depois de as universidades começarem a adotar políticas de ação afirmativa, o governo federal se mexeu para implementá-las em outras instituições também. Mais ou menos 20% das vagas para servidores federais, mais outras instituições governamentais, como o Itamaraty, foram reservadas para candidatos que se identificam como pretos ou pardos.

No fim de junho, o Conselho Nacional de Justiça, responsável pela regulação do judiciário, anunciou que, de agora em diante, 20% das vagas de juízes seriam reservadas para candidatos negros – um plano aparentemente simples que responde aos desafios envolvidos nas tentativas de construir diversidade em centros de poder. É difícil que existam advogados negros o bastante no país para preencher essas vagas, mesmo que todos se candidatassem. Assim como no vestibular, o concurso para potenciais novos juízes é tão difícil que, segundo admitiu o próprio conselho, as únicas pessoas que passam são aquelas que se dedicam por anos a fio à preparação para o processo seletivo.

Dias e outros querem ver a política de reserva de vagas estendida a empregos na iniciativa privada. Esta sugestão é vista com reticência pelos conselhos administrativos e bancadas de congressistas no Brasil. Mas é cada vez mais incomum vê-las serem repudiadas em público.

Marcelo Nilo, por exemplo, foi um dia publicamente crítico a cotas de qualquer tipo. Nilo, de 60 anos, é um político conservador e ágil que, depois de sete mandatos consecutivos como deputado estadual, tornou-se presidente da assembleia legislativa da Bahia. Mas, há poucos anos, ele mudou de partido, quando o poder mudou de mãos e os partidos de esquerda passaram a dominar – uma jogada que permitiu que ele continuasse no posto mais alto do parlamento estadual. Isso também quis dizer apoiar as cotas. Então, quando uma repórter veio conversar com ele em seu vasto gabinete no prédio pesado de concreto da assembleia, ele não hesitou em defender as ações afirmativas.

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Um homem caminha perto do posto de saúde Santa Mônica no bairro majoritariamente negro da Liberdade, em Salvador, Bahia, o estado representado pelo deputado Marcelo Nilo (Mario Tama/Getty Images Assignment para The Globe and Mail)

“Hoje, o Brasil evoluiu muito, porque as pessoas brancas e as pessoas negras têm os mesmos direitos, mas os negros ainda têm que conquistar o mesmo poder econômico”, começou ele, mas depois pegou uma tangente e recomeçou. “Para entrar na universidade, no meu ponto de vista, os negros não têm dificuldade; não têm preconceito contra eles. Existe discriminação contra pessoas pobres. (...) Se você puser cota para negros, você está discriminando contra brancos? Eu sou a favor, porque sei que as pessoas negras têm dificuldade de acesso a empregos. Mas algumas pessoas não são.”

O deputado diz que o progresso em termos de igualdade racial é evidente na assembleia que ele representa. O parlamento do estado mais negro do Brasil parece, num passar de olhos, quase uniformemente branco. Questionado sobre quem exatamente é negro, ele grita o nome de dois deputados pardos, antes de se virar para uma fileira de assessores brancos sentados em sofás no seu gabinete: “Aquele deputado, aquele deputado, qual é o nome dele? Temos ele!” Uma assistente corre os dedos freneticamente por uma lista no seu celular, tentando encontrar o nome do parlamentar negro.

De qualquer forma, continua Nilo, a cor da pele é irrelevante. “Eu conversei com todos os parlamentares aqui, e não conheço um que seja racista. Eu conversei com todos eles e eu juro que não conheço um racista. Sim, todos são brancos, casados com mulheres brancas. Mas isso é porque eles gostam mais da cor branca... É uma questão de afinidade.”

Ele pausa para oferecer pequenas xícaras de café, trazidas por um garçom negro, enquanto dois seguranças, ambos negros, assistem a tudo. Na verdade, diz o deputado, é ilusório falar sobre cor da pele quando todos na Bahia têm uma ascendência miscigenada. “Eu não sou branco”, diz o deputado, cuja pele brilha como um floco de neve. “Meu pai era moreno”, diz.

Ele manda um de seus assessores buscar uma foto de seu pai, que também pode parecer branco para um observador desinformado. Nilo admite que muitas pessoas provavelmente veem seu pai, que também era político, o prefeito da cidade deles durante muitos anos, como branco. Mas não importa, conclui ele. “Eu sou moreno.”

Em falta: uma conversa explícita
Parte 8

Em falta: uma conversa explícita

Há dez anos, Daniele de Araújo trocou seu trabalho como empregada doméstica por um de operadora de telemarketing – ela era incrivelmente boa nesse trabalho, mas tinha ambições maiores. Então, ela voltou a estudar, e agora está prestes a se formar em técnica em radiologia, especializada em densitometria óssea. Seu marido Jonatas deixou o serviço militar depois de sete anos e agora trabalha como segurança de uma fábrica de aço – um trabalho sindicalizado, acompanhado de excelentes benefícios. Sarah frequenta uma escola privada, cujo currículo inclui aulas de inglês – um selo a se ambicionar.

É tentador, diz Marcelo Paixão, o economista negro, acreditar que o estreitamento da desigualdade econômica nos anos recentes também vai, com o tempo, reduzir as disparidades raciais. Ainda assim, destaca ele, enquanto a desigualdade de renda diminuiu, as taxas de violência policial contra negros, por exemplo, só fizeram aumentar. É necessário que haja uma conversa explícita em que se reconheça que as pessoas pobres não são iguais entre si, diz ele. “O Brasil pode se transformar sem examinar a desigualdade racial? Eu acho impossível.”

Por ora, a conversa continua silenciada. Nas eleições para presidente no ano passado, por exemplo, uma entre os três principais candidatos era uma mulher negra, Marina Silva. Ela chegou perto de ganhar. Mas, observa Paixão com uma risada, você tinha que ficar “lembrando a ela” sobre o fato de ser negra, tão poucas foram as menções à sua raça por parte dela ou de qualquer outra pessoa durante sua campanha.

Mas, em Salvador, Ícaro Vidal se vê conversando sobre raça cada vez mais. Um dia, durante o carnaval do ano passado, um guarda fechou o cordão de veludo bem na frente dele, enquanto uma fila de amigos seus (todos brancos) adentravam a festa de uma boate. “Eu disse para o segurança: ‘Sabe qual é o seu problema? Você acha que pessoas negras como nós só podem segurar a corda.’”

O segurança pediu desculpas e o deixou passar. E Vidal foi dançar. Seu cabelo estava solto, caracóis ao vento. Ele sabia que as pessoas estavam sussurrando comentários a respeito entre si. E isso não era um problema.

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330455705110111,Jardim Botânico,6,5811,3500,4408,2000,18009,14915,2195,802,73,24,0,97
330455705110106,Lagoa,6,8286,6000,6160,3000,21198,19361,1404,323,99,11,0,110
330455705110140,Leblon,6,6845,4900,5045,2400,46044,40098,4134,1581,201,30,0,231
330455705110302,São Conrado,6,6902,4000,5006,1500,10980,9090,1336,499,42,13,0,55
330455705110286,Vidigal,6,996,600,647,510,12797,5123,5798,1749,111,16,0,127
330455705120001,Benfica,7,1133,700,674,510,25081,11174,9977,3605,285,40,0,325
330455705120026,Mangueira,7,861,580,499,510,17835,4370,8274,4936,247,8,0,255
330455705120067,São Cristóvão,7,1613,1000,1030,510,26510,13769,9344,3078,293,26,0,319
330455705120071,Vasco da Gama,7,1198,750,818,510,15482,8226,5533,1563,124,36,0,160
330455705130278,Alto da Boa Vista,8,2094,1000,1415,600,9343,5851,2310,1141,26,15,0,41
330455705130263,Praça da Bandeira,8,2561,1600,1965,1020,8662,6125,1922,550,54,11,0,65
330455705130029,Tijuca,8,3357,2000,2504,1200,163805,122764,28686,10994,1180,178,3,1361
330455705140165,Andaraí,9,2505,1500,1845,999,39365,27048,8803,3162,319,33,0,352
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330455705140042,Vila Isabel,9,2502,1500,1821,800,86018,53787,23593,7964,570,104,0,674
330455705150041,Bonsucesso,10,1435,1000,981,600,18711,11044,5744,1643,251,29,0,280
330455705150001,Manguinhos,10,699,510,424,510,36160,12443,17464,5752,481,20,0,501
330455705150164,Olaria,10,1451,1000,983,600,57514,31622,19912,5734,220,26,0,246
330455705150083,Ramos,10,1336,1000,919,600,40792,22081,14878,3571,219,43,0,262
330455705160209,Brás de Pina,11,1280,850,824,510,59222,28449,21461,8789,479,44,0,523
330455705160092,Penha,11,1203,800,734,510,78678,34831,30448,12445,900,54,0,954
330455705160116,Penha Circular,11,1396,1000,885,510,47816,25296,16300,5921,270,24,5,299
330455705320035,Del Castilho,12,1294,900,866,510,15610,9180,4860,1488,46,36,0,82
330455705320125,Engenho da Rainha,12,1226,850,818,510,26659,11305,10739,4354,235,26,0,261
330455705320001,Higienópolis,12,1547,1000,1100,700,15734,9591,4709,1298,109,27,0,136
330455705320040,Inhaúma,12,1074,800,687,510,45698,21451,17366,6620,219,42,0,261
330455705320023,Maria da Graça,12,1783,1200,1250,800,7972,5314,2040,570,43,5,0,48
330455705320129,Tomás Coelho,12,1155,800,762,510,22676,10105,8808,3613,118,32,0,150
330455705170481,Abolição,13,1661,1020,1181,700,11356,7041,3194,1065,49,7,0,56
330455705170393,Água Santa,13,1629,1000,947,510,8756,4700,2683,1287,66,20,0,86
330455705170299,Cachambi,13,2103,1500,1488,980,42415,28673,10360,3174,166,42,0,208
330455705170407,Encantado,13,1537,1000,1062,600,15021,8720,4498,1652,126,25,0,151
330455705170342,Engenho de Dentro,13,1622,1000,1118,600,45540,26428,13889,4980,180,63,0,243
330455705170075,Engenho Novo,13,1562,1000,1091,600,42172,22229,13417,6193,293,40,0,333
330455705170049,Jacaré,13,1101,700,662,510,9276,4247,3757,1201,66,5,0,71
330455705170132,Lins de Vasconcelos,13,1682,1000,1130,510,37487,17461,14671,5088,210,57,0,267
330455705170174,Méier,13,2725,2000,1974,1100,49828,36394,10290,2854,244,46,0,290
330455705170452,Piedade,13,1402,1000,981,600,43378,23482,14396,5262,179,59,0,238
330455705170497,Pilares,13,1237,900,794,510,27250,13069,10043,3931,174,33,0,207
330455705170027,Riachuelo,13,1870,1200,1362,800,12653,7914,3604,1075,47,13,0,60
330455705170013,Rocha,13,1949,1300,1389,800,8766,5527,2438,742,43,16,0,59
330455705170061,Sampaio,13,1196,760,772,510,10895,4876,3707,2162,124,26,0,150
330455705170001,São Francisco Xavier,13,1694,1000,1159,550,8343,4184,2966,1138,43,12,0,55
330455705170186,Todos os Santos,13,2600,1822,1893,1021,24646,18204,4881,1434,93,34,0,127
330455705190137,Colégio,14,1037,700,637,510,29245,12156,12422,4420,230,17,0,247
330455705190227,Irajá,14,1498,1000,1027,600,96382,51148,31773,12751,605,105,0,710
330455705190037,Vicente de Carvalho,14,1086,700,706,510,24964,10403,10501,3724,311,25,0,336
330455705190061,Vila da Penha,14,1428,1000,970,600,18274,9352,6560,2215,123,24,0,147
330455705190001,Vila Kosmos,14,2145,1500,1531,1000,25465,16994,6531,1741,164,35,0,199
330455705190101,Vista Alegre,14,1722,1200,1194,800,8622,5552,2226,801,32,11,0,43
330455705200405,Bento Ribeiro,15,1441,1000,967,530,43707,22100,15957,5418,182,50,0,232
330455705200001,Campinho,15,1741,1000,1188,600,10156,5441,3650,971,78,16,0,94
330455705200113,Cascadura,15,1301,890,888,510,34456,16257,13123,4882,173,21,0,194
330455705200058,Cavalcanti,15,1049,800,617,510,16141,7226,6638,2164,102,11,0,113
330455705200076,Engenheiro Leal,15,1058,800,651,510,6113,2268,2769,1028,44,4,0,48
330455705200304,Honório Gurgel,15,1117,800,695,510,21989,9215,9446,3214,84,30,0,114
330455705200153,Madureira,15,1372,1000,907,510,50106,22594,18908,8183,404,17,0,421
330455705200439,Marechal Hermes,15,1309,850,838,510,48061,21513,20055,6210,240,43,0,283
330455705200357,Oswaldo Cruz,15,1369,1000,895,510,34040,15635,12530,5603,239,28,5,272
330455705200015,Quintino Bocaiúva,15,1354,1000,932,560,31185,16745,10436,3880,109,15,0,124
330455705200301,Rocha Miranda,15,1191,800,777,510,44188,19294,17266,7302,296,30,0,326
330455705200253,Turiaçu,15,1131,800,770,510,17246,7071,7306,2766,87,16,0,103
330455705200211,Vaz Lobo,15,1126,800,711,510,15167,6471,5572,3045,78,1,0,79
330455705210437,Anil,16,2555,1500,1707,700,24172,15885,6555,1581,127,24,0,151
330455705210464,Curicica,16,1271,800,854,510,31189,14663,12681,3656,155,31,3,189
330455705210339,Freguesia (Jacarepaguá),16,2673,1500,1860,800,70511,44303,19534,6311,325,38,0,363
330455705210442,Gardênia Azul,16,1069,750,728,510,17715,6908,8409,2274,113,11,0,124
330455705210138,Jacarepaguá,16,1351,800,906,510,157326,69990,70333,15696,1132,174,1,1307
330455705210001,Pechincha,16,2465,1500,1750,1000,34709,22569,9299,2630,159,52,0,211
330455705210267,Praça Seca,16,1561,1000,1048,511,64147,32474,23624,7416,572,60,1,633
330455705210174,Tanque,16,1467,1000,944,510,37856,18084,14617,4815,285,55,0,340
330455705210012,Taquara,16,1769,1020,1183,600,102126,55202,35401,10801,559,163,0,722
330455705210219,Vila Valqueire,16,2279,1500,1503,750,32279,20890,8610,2604,140,35,0,175
330455705220076,Bangu,17,1088,700,671,510,243125,92904,111740,36158,1901,237,185,2323
330455705220305,Gericinó,17,702,510,74,0,15167,3949,7365,2919,120,2,812,934
330455705220001,Padre Miguel,17,1152,800,725,510,64228,27795,27652,8343,400,38,0,438
330455705220351,Senador Camará,17,965,670,576,510,105515,39612,50930,14070,859,44,0,903
330455705230036,Campo Grande,18,1362,900,846,510,328370,147323,140461,38060,2143,373,10,2526
330455705230419,Cosmos,18,919,680,526,510,77007,26299,38780,11310,558,56,4,618
330455705230359,Inhoaíba,18,914,650,517,500,64649,22446,31792,9678,691,42,0,733
330455705230032,Santíssimo,18,1027,750,616,510,41458,17237,19285,4653,261,22,0,283
330455705230331,Senador Vasconcelos,18,1135,800,701,510,30600,12174,14349,3858,188,31,0,219
330455705240004,Paciência,19,886,600,506,500,94626,31650,47687,14376,801,112,0,913
330455705240428,Santa Cruz,19,941,630,533,500,217333,72127,110202,32554,2211,239,0,2450
330455705240434,Sepetiba,19,940,600,537,500,56575,21813,27916,6377,403,66,0,469
330455705250053,Bancários,20,1397,900,923,510,12512,6121,5044,1217,89,41,0,130
330455705250009,Cacuia,20,1455,1000,948,510,11013,5911,4114,926,47,15,0,62
330455705250278,Cidade Universitária,20,1415,1000,901,510,1556,650,756,148,2,0,0,2
330455705250046,Cocotá,20,2001,1300,1409,800,4877,3069,1478,286,35,9,0,44
330455705250094,Freguesia (Ilha do Governador),20,1607,1000,1076,510,19437,9851,7516,1933,129,8,0,137
330455705250258,Galeão,20,1370,790,811,510,22971,10144,10345,2262,185,35,0,220
330455705250141,Jardim Carioca,20,1594,950,1078,540,24848,12641,9893,2095,188,31,0,219
330455705250096,Jardim Guanabara,20,3565,2500,2524,1500,32213,25522,5495,986,163,47,0,210
330455705250303,Moneró,20,2865,2000,2019,1300,6476,4882,1194,334,58,8,0,66
330455705250020,Pitangueiras,20,1280,750,843,510,11756,6127,4301,1189,123,16,0,139
330455705250307,Portuguesa,20,1960,1200,1379,730,23856,13791,8090,1724,232,19,0,251
330455705250036,Praia da Bandeira,20,2049,1500,1432,900,5948,3618,1793,464,51,22,0,73
330455705250001,Ribeira,20,2653,1800,1823,1000,3528,2721,630,137,7,33,0,40
330455705250302,Tauá,20,1360,800,886,510,29567,14259,12383,2708,190,27,0,217
330455705250006,Zumbi,20,2521,1600,1816,1000,2016,1521,421,68,1,5,0,6
330455705260001,Paquetá,21,1707,900,1188,510,3361,1832,1203,315,7,4,0,11
330455705270214,Anchieta,22,1065,700,662,510,55652,21148,25020,8960,481,43,0,524
330455705270028,Guadalupe,22,1207,800,748,510,47144,19881,20374,6513,354,22,0,376
330455705270142,Parque Anchieta,22,1311,900,802,510,26212,11800,11048,3184,167,13,0,180
330455705270216,Ricardo de Albuquerque,22,1084,700,648,510,29310,11512,13194,4316,269,19,0,288
330455705280004,Santa Teresa,23,1697,1000,1242,600,40926,21509,13956,4954,384,123,0,507
330455705290033,Barra da Tijuca,24,6835,5000,4823,2300,135924,119060,13049,2852,850,75,38,963
330455705290313,Camorim,24,2261,1000,1526,510,1970,943,719,288,18,2,0,20
330455705290286,Grumari,24,571,510,317,300,167,29,108,30,0,0,0,0
330455705290002,Itanhangá,24,1763,800,1223,600,38415,19721,16091,2368,220,13,2,235
330455705290001,Joá,24,7891,4000,5720,2000,818,710,88,20,0,0,0,0
330455705290285,Recreio dos Bandeirantes,24,3808,2000,2639,900,82240,57890,19368,4240,585,157,0,742
330455705290287,Vargem Grande,24,1456,700,958,510,14039,6544,6098,1319,61,17,0,78
330455705290300,Vargem Pequena,24,1273,700,816,510,27250,11802,11923,3330,159,36,0,195
330455705300052,Acari,25,686,510,390,500,27347,9061,14072,3760,438,16,0,454
330455705300083,Barros Filho,25,762,580,424,500,14049,5032,7116,1775,116,10,0,126
330455705300001,Coelho Neto,25,1058,800,662,510,32423,14178,13539,4554,143,9,0,152
330455705300111,Costa Barros,25,744,538,424,500,28442,8315,14508,5264,315,40,0,355
330455705300182,Parque Columbia,25,997,700,617,510,9202,3519,4243,1367,71,2,0,73
330455705300144,Pavuna,25,1031,790,635,510,97350,36981,44110,15343,835,81,0,916
330455705310101,Barra de Guaratiba,26,1261,800,777,510,3577,1399,1769,378,28,3,0,31
330455705310001,Guaratiba,26,939,650,538,510,110049,43601,53310,12218,816,104,0,920
330455705310087,Pedra de Guaratiba,26,1364,900,850,510,9488,5385,3371,679,40,13,0,53
330455705330001,Rocinha,27,747,600,488,510,69356,27416,34182,7110,588,60,0,648
330455705340001,Jacarezinho,28,703,510,411,510,37839,12435,16241,8663,451,49,0,500
330455705350041,Complexo do Alemão,29,722,590,433,510,69143,22993,33600,11930,583,37,0,620
330455705360013,Maré,30,757,600,473,510,129770,48795,64511,15181,1162,116,5,1283
330455705390003,Cordovil,31,1020,700,623,510,45202,17908,18863,7914,499,18,0,517
330455705390171,Jardim América,31,1191,900,719,510,25226,13215,9330,2481,194,6,0,200
330455705390069,Parada de Lucas,31,881,650,496,510,23923,9193,10002,4410,307,11,0,318
330455705390131,Vigário Geral,31,898,610,504,510,41820,14717,18781,7675,604,43,0,647
330455705370033,Campo dos Afonsos,33,3739,3000,1991,600,1365,1099,201,64,1,0,0,1
330455705370001,Deodoro,33,1076,700,629,510,10842,3900,5098,1762,80,2,0,82
330455705370278,Jardim Sulacap,33,2330,1800,1513,800,13062,8358,3754,880,65,5,0,70
330455705370081,Magalhães Bastos,33,1172,800,733,510,24430,10130,11036,3069,166,26,3,195
330455705370082,Realengo,33,1150,800,730,510,180123,75575,78108,25186,1101,153,0,1254
330455705370015,Vila Militar,33,1659,1000,1029,510,13184,5512,5416,2130,105,21,0,126
330455705380001,Cidade de Deus,34,823,600,533,510,36515,9642,17454,8887,465,67,0,532